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muro

09 de Outubro de 2011

rapha

E o dia que eu resolvi sair de casa para deixar uma marca? Ok, para ser vândalo talvez, mas ainda assim uma marca. Saí de casa com duas latas de tinta spray, parei em frente ao muro vizinho ao prédio onde morava e, com as mãos trêmolas e sem pensar muito, fiz um enorme coração com a tinta vermelha, para ao lado escrever “Para viver basta não estar morto”.

O primeiro a cair foi o coração: naquela parte do lote fariam um estacionamento; no lugar de “Para viver” agora existe uma entrada do supermercado e daqui a pouco o muro não vai existir mais. E para mim só vai restar a lembrança de que naquele dia eu realmente estava vivo.

 

Mundo.

02 de Julho de 2011

rapha

Hoje eu quero sair sem rumo pra sentir o mundo, e para fazer o mundo me sentir.

não.

22 de Junho de 2011

rapha

‘Realidade’ é uma palavra de três letras.

Os meus cigarros.

13 de Maio de 2011

rapha

Meus cigarros têm nome, sexo, cheiro, paisagem e data de nascimento. Eu poderia muito bem entre uma tragada e outra olhar pra ele, perguntar “quem é você?” e começar uma conversa, porque sim, eles falam comigo. Me dizem coisas duras, coisas bonitas, coisas que nunca disseram e nunca vão dizer, tudo naqueles cinco minutos incríveis e irreais. E no fim, quando eu finalmente esmago sua cara no cinzeiro, aquela fumaça maldita que me invadiu acaba e deixa aquele rastro asqueroso, fétido e solitário.

E tem mais: atrás dos maços todos aqueles avisos sobre câncer, impotência, amputações. Ha! Como se o câncer assustasse quem quer morrer, ou pior, quem já está morto! Se eu pudesse mandaria escrever em todos os maços:  ”Pessoas são demitidas todos os dias, é a vida.” ou “Mais de 80 milhões de mulheres no Brasil. E daí que ela foi embora?”, “Pessoas velhas e animais de estimação morrem mesmo. Você também.”, e por aí vai, sabe? Acho que o que falta mesmo e a realidade nua, crua e na cara. A doença não é o câncer. A verdadeira doença do cigarro é achar lindo se esconder atrás daquela cortina de fumaça, criar um mundo onde os problemas vão se resolver sozinhos. Não vão.

A verdade é que meus cigarros não são meus. Meus cigarros só me usam.

qual é a música?

11 de Abril de 2011

rapha

esse negócio de associar músicas com lembranças é uma coisa bizarra. pra mim é tão forte quanto aquelas lembranças que surgem ao sentir um cheiro: dependendo da música fico até sem rumo.

detesto quando a vida me rouba os meus melhores discos.

a cidade

10 de Abril de 2011

rapha

A cidade se abriu para mim.

E me mostrou seus segredos, escondidos nas feridas abertas, nos amores perdidos, nas suas saudades e nas esperanças de tempos melhores.

Suas paredes de concreto então se tornaram frágeis, de papel. As palavras eram como a roupa do rei: a desnudavam mais a cada letra.

Cicada.

28 de Março de 2011

rapha

Como fazia todos os dias, D. acordou cedo e preparou seu café da manhã: um pão com manteiga e uma xícara de café; mas quando sentou-se à mesa, sentiu que algo não estava certo. Muitas vezes teve uma sensação parecida, mas bastava trocar sua xícara de café por um não tão habitual copo de achocolatado preparado com leite desnatado para que desaparecesse. Preparou então seu achocolatado e sentou-se novamente à mesa, olhando seu copo, sua xícara e seu pão. Ainda não era certo.

Levantou-se, foi até a geladeira e serviu um copo de refrigerante, que havia comprado junto com a pizza para o jantar da noite anterior. Colocou o copo na mesa, sentou-se e bebeu. Era isso! A felicidade e o prazer daquele gole foram seguidos por um torpor e a escuridão.

Não fazia ideia do que havia acontecido, tampouco do tempo transcorrido desde o copo de refrigerante. Tentou abrir os olhos, mas não via nada: com os olhos fechados era tudo escuro, com eles abertos, uma tela amarelada e opaca. Não podia se mover e a única coisa que sentia e ouvia era seu coração batendo acelerado e com uma força descomunal dentro do seu peito, junto com uma dor dilacerante em suas costas como se houvesse uma chama consumindo sua coluna vertebral. Um tremor incontrolável tomou conta do seu corpo e desmaiou mais uma vez.

Quando acordou viu o chão e o pé do seu sofá: “Como havia chegado até a sala de estar?”,se perguntava. O som do seu coração foi substituído pelo telefone tocando incessantemente no quarto de TV. Levantou-se com dificuldade e percebeu que estava nu. Andou escorando nas paredes rumo ao telefone, quando algo o deteve na sala de jantar: seu corpo, caído no chão com um aspecto mumificado, com um rasgo enorme nas costas. E saindo deste rasgo um rastro, que levava diretamente ao local onde havia despertado.

Aniversários

10 de Março de 2011

rapha

Eu faço 3 aniversários por ano: 15 de março, 29 de maio e 13 de dezembro, e em cada um tenho uma idade diferente.

Na terça-feira (15/3) faço 1 ano de uma nova fase da minha vida, onde joguei um monte de lixo em seu devido lugar – mas quase fui junto.

O engraçado é que há 369 dias atrás eu estava sendo levado para o Joao XXIII, mal conseguia dizer o meu nome e por muito pouco não larguei tudo e fui viver de amor. E este ano na mesma data estarei (provavelmente) em Buenos Aires tomando vinho e comendo doce de leite.

A vida tem dessas coisas, só que na maioria das vezes não conseguimos enxergar. Por isso eu gosto destas datas especiais: me forçam a olhar para trás e para frente ao mesmo tempo.

egoísta

24 de Fevereiro de 2011

rapha

Aconteceu em 18 de março de 2010.

- “Egoísta!” – me disse.

E o que era para ser um insulto, foi um dos maiores elogios que recebi na minha vida.

Foi a primeira vez que me disseram isso. E por causa dessa palavra, vi que aquele momento foi a primeira vez que pensei em mim e me coloquei na frente do mundo para tomar as decisões.

Obrigado.

borboletas

20 de Fevereiro de 2011

rapha

Tentar racionalizar algo que é em sua natureza completamente irracional é tirar de cena aquela coisa incontrolável, que vem de dentro, que sai daquele lugar profundo e escuro onde poucas coisas fazem sentido – mas que ainda assim são o que são. É matar as borboletas do estômago.

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