Como fazia todos os dias, D. acordou cedo e preparou seu café da manhã: um pão com manteiga e uma xícara de café; mas quando sentou-se à mesa, sentiu que algo não estava certo. Muitas vezes teve uma sensação parecida, mas bastava trocar sua xícara de café por um não tão habitual copo de achocolatado preparado com leite desnatado para que desaparecesse. Preparou então seu achocolatado e sentou-se novamente à mesa, olhando seu copo, sua xícara e seu pão. Ainda não era certo.
Levantou-se, foi até a geladeira e serviu um copo de refrigerante, que havia comprado junto com a pizza para o jantar da noite anterior. Colocou o copo na mesa, sentou-se e bebeu. Era isso! A felicidade e o prazer daquele gole foram seguidos por um torpor e a escuridão.
Não fazia ideia do que havia acontecido, tampouco do tempo transcorrido desde o copo de refrigerante. Tentou abrir os olhos, mas não via nada: com os olhos fechados era tudo escuro, com eles abertos, uma tela amarelada e opaca. Não podia se mover e a única coisa que sentia e ouvia era seu coração batendo acelerado e com uma força descomunal dentro do seu peito, junto com uma dor dilacerante em suas costas como se houvesse uma chama consumindo sua coluna vertebral. Um tremor incontrolável tomou conta do seu corpo e desmaiou mais uma vez.
Quando acordou viu o chão e o pé do seu sofá: “Como havia chegado até a sala de estar?”,se perguntava. O som do seu coração foi substituído pelo telefone tocando incessantemente no quarto de TV. Levantou-se com dificuldade e percebeu que estava nu. Andou escorando nas paredes rumo ao telefone, quando algo o deteve na sala de jantar: seu corpo, caído no chão com um aspecto mumificado, com um rasgo enorme nas costas. E saindo deste rasgo um rastro, que levava diretamente ao local onde havia despertado.
