Quando nasceu, W. tinha algo curioso: era um bebê aparentemente normal, mas no meio do seu peito havia um buraco vazado, mais ou menos do tamanho de uma bola de tênis. Apesar de diferente – os médicos chamavam de uma curiosidade científica – , ele vinha de uma família onde todos haviam nascido com essa peculiaridade. Sua mãe, por exemplo, tinha o peito com um aspecto de uma peneira, como se aquele buraco tivesse se transformado em milhares de mini-furos. Seu avô, por outro lado, parecia ter sido alvejado por tiros: 8 ou 9 furos com mais ou menos 13mm de diametro. Então ninguém criou muito alarde, o tempo diria como esse “vazio” – por assim dizer- iria se fechar.
Anos se passaram e aconteceu o inesperado: a peneira da sua mãe se transformou em uma rede. Depois de rede, em um buraco, e depois disso tomou o seu corpo de uma forma onde a única coisa que restava era uma massa negra, pegajosa, esparramada no chão. E isso aconteceu não só com ela. Seus avós, uma tia, seu pai: nada restava deles além dessa massa. Era como se aquele vazio, que até então era uma mera curiosidade, fosse algo tóxico ou patológico como uma espécie de câncer. Uma forma viva.
Nessa hora W. – naquele momento ainda menino – com medo de ter o mesmo destino pegou aquela massa que restou dos seus parentes e começou a preencher o seu peito na esperança de algum dia conseguir reconstruir o que foi embora. Na esperança também de acabar com aquele vazio, com medo de que ele também criasse uma vida própria e acabasse com sua própria existência. Se ele conseguisse preenche-lo, talvez conseguiria salvar sua vida. Trocou o seu vazio por uma bola preta, em boa parte composta pelo resto dos seus familiares e o restante por fragmentos de experiências que ele vivenciava e coletava pelo caminho da sua vida.
Inútil. Mal ele sabia o que lhe aguardava: um dia durante o seu trabalho sua bola preta esboçou um movimento. O suficiente para lhe causar um calafrio, mas tão sutil ao ponto de não ter que se preocupar. Segundos depois um outro movimento, mais brusco. E naquele momento a massa negra havia crescido 5cm. E então, em um movimento incontrolável, ela se mostrou viva e cresceu. Cresceu ao ponto de vazar do seu peito, ao ponto de tomar conta do seu corpo, de sair dos seus poros, olhos, boca e nariz, e a dor era excruciante. Se você olhasse para W. nesse momento era impossível distinguir quem era W. e quem era a massa: eram um só, indistinguíveis em um movimento incontrolável. Mas na velocidade que se iniciou, acabou-se: em poucos segundos aquela substancia viva se desprendeu do seu corpo e caiu no chão, deixando apenas um homem com um buraco no peito, da forma que ele havia nascido.
Havia chegado a hora de criar uma forma de preencher aquele vazio tóxico com algo que fosse só de W. Trocar a bola preta por algo que fosse realmente seu.
